Introdução
Sempre achei que dar tudo era sinal de compromisso, força e profissionalismo. Era daquele tipo de trabalhadora que vivia o trabalho de forma intensa — hoje sei que essa sobrecarga nem sempre era força, mas hábito.
Fosse onde fosse.
Com a responsabilidade que tivesse.
Fui sempre assim, independentemente da função ou do cargo: como assistente administrativa ou como coordenadora de equipas.
Era daquelas que fazia horas extra, que levava trabalho para casa e que, quando surgia um novo desafio, nunca sabia dizer que não.
Dar tudo parecia ser o caminho certo
Isso fez com que, por um lado, fosse construindo um percurso profissional de sucesso.
Dava tudo de mim. Subia a montanha passo a passo, sem bengalas nem ajudas.
Mas, quanto mais alto subia, mais evidente se tornava um problema:
querer fazer um pouco de tudo — e, por regra, mais do que uma pessoa consegue fazer.
Nunca quis ser só o cérebro, quis ser também os braços
Nunca fui o tipo de líder que fica nos bastidores apenas a comandar a operação.
Nunca quis ser só o cérebro. Sempre quis ser mais uns braços.
Apoiar onde sabia que a minha equipa não estava a conseguir chegar porque tinha outras prioridades naquele momento.
Sempre fui a que se desdobrou em quantas fossem necessárias para chegar a todo o lado e ajudar todos.
Mas, as sobrecarga operacional não se resolve com remendos.
O que isso me trouxe (e o que levou)
E o que é que isso me trouxe?
Sem dúvida:
- a satisfação de me sentir útil;
- o sentimento de empoderamento por ser capaz;
- e, muitas vezes, o reconhecimento pelo esforço.
Mas sejamos honestos: algo teve sempre de ficar para trás.
O que ficou para trás quando tentei fazer tudo
Ficou para trás o planeamento — porque reagia apenas ao momento.
Ficaram para trás:
- a estratégia;
- o foco;
- o tempo para acompanhar verdadeiramente os níveis de desempenho;
- as melhorias possíveis;
- o que poderia ter sido feito se me tivesse centrado no meu verdadeiro papel.
Não somos “a super mulher” nem o “super homem”
Por vezes, é preciso aceitar que não somos “a super mulher” ou o “super homem”.
Dirigir um negócio não é ficar preso aos bastidores nem ao operacional.
Ninguém consegue criar estrutura se estiver sempre a apagar fogos e em sobrecarga de tarefas.
Este padrão de sobrecarga constante não é apenas emocional — é também cognitivo. Estudos sobre sobrecarga cognitiva no trabalho mostram que quando acumulamos demasiadas funções e decisões, o foco, a capacidade estratégica e a clareza diminuem drasticamente.
Um artigo recente da Volaris Group aprofunda este impacto nas organizações e ajuda a compreender porque “fazer tudo” raramente é sinal de eficiência.
Liderar também é afastar-se para refletir
Hoje sei que, se é empreendedor ou lidera um negócio, precisa de se afastar para refletir.
Perguntas simples — mas difíceis:
- Estou realmente a cumprir o meu papel?
- O que preciso, de facto, de delegar para voltar a centrar-me no que interessa?
- O que me está a roubar o foco e a energia?
- Como posso obter ajuda para resolver isso?
Intensidade, equilíbrio e uma verdade difícil de aceitar
Sou intensa por natureza. Um pouco tudo ou nada.
E é esse equilíbrio que trabalho todos os dias para alcançar.
Mas esta é a verdade que me custou aceitar — e que é fundamental em qualquer negócio:
ninguém é insubstituível
(apenas na nossa vida pessoal isso acontece).
Esta reflexão faz parte de um conjunto de textos que vou desenvolver neste blog. Dê-me o prazer da sua companhia e fique por aí.