Introdução
Depois de perceber que fazer tudo tinha deixado de ser força e passado a ser bloqueio, a vida foi-me dando vários sinais de que algo já não estava a funcionar.
Houve uma pergunta que começou a surgir com mais frequência — e que já não dava para ignorar.
Se eu era competente, dedicada e experiente… Se gostava do que fazia, da equipa que liderava e do desafio de ser sempre posta à prova para novas valências… Se a minha carreira parecia progredir mais do que até alguma vez imaginara…
porque é que continuava a sentir-me desalinhada?
Não era falta de gosto.
Não era falta de motivação.
Era algo mais difícil de nomear.
Estava a progredir, mas algo já não batia certo
Durante muito tempo confundi envolvimento com propósito.
Confundi dedicação e empenho com limites pessoais.
Desaprendi a dizer que “não”, ou “não sou capaz”, pois fui sempre a que acha quando um desafio se me apresenta na vida é porque tenho capacidade para superá-lo.
Sempre me exigi demais. Estava presente em tudo. Na visão, no detalhe, no operacional, na execução.
Era útil, necessária, resolutiva.
Mas quanto mais fazia, mais sentia que algo se afastava:
a clareza sobre o meu verdadeiro papel.
Não era cansaço físico.
Era desgaste interno.
A sensação de estar a dar energia onde já não criava impacto real.
A dificuldade em largar papéis que nos definem
Há uma resistência silenciosa quando começamos a perceber que algo precisa de mudar.
Porque largar tarefas, funções ou papéis não é apenas reorganizar trabalho —
é mexer em identidades e, por vezes, como no meu caso, reestruturar carreiras e direções.
Quem sempre foi “a que resolve”, a que está sempre disponível, a que chega a todo o lado, demora a aceitar que continuar assim pode estar a bloquear o crescimento — pessoal e profissional.
Apenas no distanciamento reflexivo, no entender dos “porquês”, no olhar para dentro, podemos entender o que realmente faz sentido e qual é o melhor caminho.
Um cargo não nos define, um fracasso não nos dita e, viver papéis ou rótulos que não nos servem é adiar o inevitável.
Só mais tarde percebi que isto tinha um nome
Foi apenas mais tarde que encontrei um conceito que me ajudou a organizar aquilo que já sentia há algum tempo.
Aquilo a que se chama Ikigai, como um enquadramento útil para pensar em alinhamento entre competências, valor criado e papel profissional.
O conceito é explicado, de forma clara, neste artigo do Valor Económico sobre o Ikigai e o propósito profissional.
Não como uma ideia romântica de propósito, mas como um ponto de alinhamento entre:
- aquilo que sabemos fazer bem;
- o valor que realmente criamos;
- a forma como usamos a nossa energia;
- o papel que ocupamos dentro de uma estrutura.
Na prática, não se trata de fazer mais. Trata-se de estar no lugar certo.

A verdadeira mudança não foi de área, foi de propósito
A grande viragem não aconteceu quando mudei de função ou de contexto.
Aconteceu quando percebi que precisava de deixar de ser apenas “mais uns braços”
para passar a criar estrutura.
Que o meu valor não estava em fazer tudo, mas em organizar, simplificar e libertar espaço — para mim e para os outros.
Foi aqui que tudo começou a alinhar: energia, foco, impacto e sentido. E, a Assistência Virtual foi, assim, mais do que reestruturação de carreira, mas o alinhar-me com uma intenção e um propósito maior.
A vontade de querer ocupar o meu verdadeiro lugar. A motivação de realmente fazer a diferença, partilhando com o mundo:
- aquilo que sei fazer bem e em que tenho experiência e paixão;
- gerando o impacto que quero gerar em pequenos negócios que precisam focar-se no seu core business e não no operativo;
- usar a minha energia onde realmente posso voltar a sentir que continuo a gerar impacto e valor.
Porque, nos vamos reescrevendo ao longo do caminho. E, mesmo que possa ser assustador, arriscar sair da zona de conforto e viver de acordo com aquilo que defendemos como certo…pode ser uma jornada incrível.
Hoje sei porque faço o que faço
Hoje, como Assistente Virtual, ajudar negócios a organizarem-se também foi uma forma de me reorganizar a mim.
Criar processos, estruturar informação, apoiar decisões e libertar tempo, não é apenas operacional.
E, como expliquei, não é só uma questão profissional, é uma questão pessoal e vivida na pele É o motivo que me levou a criar a Compliance On. É alinhamento com o meu propósito, é fazer aquilo que me é natural e fácil.
Eu sei o que é sentir que o operacional lhe está a levar a melhor. Mas sabe uma coisa, essa sobrecarga é normal e, é sinal que o negócio começa a crescer, como sonhava. Por isso, quero ser os braços que apoiam empreendedores e/ou líderes de pequenas empresas a criarem estrutura e foco no seu propósito.
Permitir que quem lidera volte a ocupar o seu verdadeiro papel.
E isso, para mim, isso faz toda a diferença.
Um exercício de reflexão (para quem se revê nisto)
Para quem sente que está ocupado, mas desalinhado, criei um pequeno exercício de reflexão.
Não para dar respostas fechadas, mas para ajudar a clarificar onde está a gastar energia — e onde realmente cria valor.
A questão a refletir é: “O seu Ikigai está a ser sustentado pelo seu negócio?”
Alinhamento não acontece de um dia para o outro.
Mas começa no momento em que deixamos de ignorar o desconforto.
E aceitamos que crescer, muitas vezes, não é fazer mais, não é fazer o mesmo — é fazer diferente e com mais consciência.
Este foi o primeiro passo. Nos próximos artigos, partilho como este alinhamento só se sustenta quando existe estrutura, processos e sistemas que o apoiam.